(Extraído do livro “Naturismo: A Redescoberta do Homem” – Capítulo I)
O aviso do comandante precede as manobras do procedimento de descida e um pequeno solavanco provocado pelo ajuste do trem de pouso me faz despertar para a realidade do momento: estou chegando em Brasília, num vôo pago pelo Congresso Nacional, para dar uma palestra na Câmara dos Deputados.
Isso não deve ser muito incomum. Muitas pessoas devem ser convidadas pelos parlamentares para trazer subsídios às votações de assuntos que não sejam do domínio dos legisladores.
O assunto, porém, desta vez é incomum.
“Vestidos, nudistas invadem prédio do Congresso Nacional”. Será a manchete do Correio Brasiliense amanhã.
Não tenho nada preparado. Deveria ter feito, pelo menos, um rascunho.
Encontro com os outros amigos que também deverão participar do debate, representando o Movimento Naturista em alguns estados, e seguimos para o prédio do Congresso.
No saguão principal, deparamos com o mural no qual o aviso da nossa palestra está afixado, informando o horário e os palestrantes: DEBATE SOBRE O PL 1.411/96 – DO SR. FERNANDO GABEIRA – QUE “ESTABELECE NORMAS GERAIS PARA A PRÁTICA DO NATURISMO E DÁ OUTRAS PROVIDÊNCIAS”.
Data: 03/12/96 – terça-feira; Horário: 14:00h; Local: Plenário n.06 – Anexo II.
EXPOSITORES: CELSO LUÍS ROSSI – Presidente da Federação Brasileira de Naturismo; SÉRGIO OLIVEIRA – Vice-Presidente da Federação Brasileira de Naturismo; ALEXANDRE TSANACLIS – Delegado do Núcleo Paulista de Naturismo e Proprietário do Clube Rincão Naturista; JOSÉ EDSON DE MEDEIROS – Diretor do Centro de Estudos Naturistas, de São José dos Campos/SP; ANTÔNIO EDSON AGUIAR – Presidente da Associação de Naturismo do Distrito Federal; e PEDRO RICARDO – Associação Naturista do Abricó.
Ainda no corredor que dá acesso à sala dos debates, sou cercado por repórteres e cinegrafistas que, aos empurrões, tentam acomodar-se da melhor forma ao meu redor, estendendo seus microfones e gravadores contra o meu rosto e disputando a vez de serem ouvidos em suas perguntas.
Chamado por um dos organizadores do debate, sou forçado a romper o cerco dos repórteres e a me dirigir para a sala dos debates, onde muitos congressistas já aguardam a nossa entrada.
- Senhores deputados – inicio meu pronunciamento -, gostaria de fazer um rápido relato. Começo lembrando que, quinhentos anos atrás, os europeus chegaram ao Brasil e encontraram um país naturista, encontraram todos nus. Não havia lei para regulamentar isso. Passados quinhentos anos, estamos hoje batalhando por um instrumento legal que permita que pessoas civilizadas, não só os índios, possam também andar nuas em algumas praias e locais reservados.
As idéias vêm brotando e só consigo avaliar o restante quando recebo, dias depois, o sumário oficial do Congresso, transcrito da gravação original dos debates:
“O Movimento Naturista não pretende que em todas as áreas do Brasil se possa andar nu. Não é essa a nossa intenção. Mas entendemos democracia como partes maiores para a maioria e partes menores para a minoria, e não a opressão da minoria pela maioria.
Em termos de legislação, deve-se dizer que a brasileira não proíbe o naturismo. A Constituição institui que as praias são bens públicos, mas o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro, a Lei 7.661, em seu art. 10, diz que todas as praias são bens públicos, sendo resguardado o livre e franco acesso em todos os sentidos e direções, salvo as de segurança nacional ou as protegidas por legislação específica.
Que legislação seria específica para a prática do naturismo? Buscando na constituição a resposta, verificamos que legislar sobre assuntos de interesse local é competência privada dos municípios, porque a cultura e os interesses locais variam de lugar para lugar.
Então, é a prefeitura quem determina se em tal lugar vai ser praticado o naturismo, ou se em tal município não se vai beijar em praça pública, como muitas vezes vemos noticiado na imprensa. Um prefeito pode fazer isso, porque tem competência para tal. Se proíbe beijar em praça pública, é competência da prefeitura fazer isso. Se um prefeito libera uma praia e determina que naquela praia reservada, deserta, vai se praticar o naturismo, a partir daquele momento, os usos e costumes serão a prática do naturismo.
O atentado ao pudor é previsto pelo Código Penal. Muito bem. O que é atentado ao pudor? É o atentado contra os usos e costumes de um determinado local. Muito provavelmente, hoje, em nossa legislação, seria atentado ao pudor uma pessoa entrar vestida numa destas cinco praias oficiais de naturismo no Brasil. A legislação existente o permite.
Entretanto, para resolver problemas de incompreensões, como no caso da praia do Abricó, é importante que exista uma legislação que esclareça, interprete e mostre, como o texto desse projeto, que diz que a prática da nudez familiar, a nudez integrada aos elementos naturais, como forma de favorecer o respeito pelo meio ambiente nas áreas públicas reservadas para esse fim, não constitui ilícito penal.
Finalmente, o que busca o naturismo? Simplesmente o resgate, para as pessoas poderem aceitar o seu corpo como é, por inteiro, sem censurar determinadas partes. Às vezes, alguns religiosos dizem que é pecado andar nu. Pecado muito maior seria ter vergonha da criação de Deus. Se Ele quisesse que andássemos vestidos, nasceríamos de fraldas, não nus.
Talvez sejamos o único animal do planeta que censura seu próprio corpo, que tem vergonha do seu próprio corpo. Por exemplo, no caso das mulheres, a nossa cultura e as revistas masculinas criam determinados modelos do corpo feminino, fazendo com que aquelas mulheres que não o têm se sintam rejeitadas. O naturismo está trazendo de volta a idéia de que o corpo humano não tem padrão. Todos os corpos são diferentes, assim como todas as árvores são diferentes, todos os corpos são aceitos, todos os corpos são bonitos.
Por isso, é importante nesse momento, principalmente quando vemos que as pessoas estão quase morrendo para eliminar gordurinhas a mais, resgatar a valorização do ser humano, a aceitação corporal, a idéia de que podemos nos aceitar e podemos viver em público e entre amigos assim, sem estar ofendendo ninguém, nem sendo agredido pelos outros.”
O início dessa história aconteceu dez anos antes.
Era janeiro de 1985 e eu estava desfrutando meus quinze dias de férias em Santa Catarina, em companhia de minha então esposa, Márcia. Estávamos acampados em Quatro Ilhas, próximo a Bombinhas. Ideal para quem gosta de surfar e fazer caça submarina. No canto Norte, tem mar calmo e uma costa excelente para mergulho. No Sul, ondas. A sensação de contato com a natureza era quase plena. Para torná-la completa, começamos a procurar praias desertas para poder tirar nossas roupas e sentirmo-nos como náufragos numa ilha deserta. Fomos até Canto Grande, Zimbros e Mariscal, onde Márcia arriscou um topless. Não era, ainda, o lugar que procurávamos.
Resolvemos, um dia, ir almoçar em Itapema, no restaurante do Carlinhos, que era de um amigo nosso.
Eu lembrava de uma reportagem na revista Manchete, no ano anterior, sobre uma praia de nudismo em Santa Catarina.
- É… Tem uma praia aqui perto, onde dizem que o pessoal faz nudismo – disse ele. Olhou-nos, de cima a baixo, como se estivesse nos imaginando nus, com aquele ar de “quem diria?…”
- Onde é? – perguntei, pensando que teria de rodar ainda uns duzentos ou trezentos quilômetros até chegar à tal praia.
- É aqui perto de Camboriú. Uns dez quilômetros – respondeu, com ar desconfiado. Explicou-me como chegar ao local e foi atender outros clientes.
Terminamos de almoçar e fomos, rapidamente, à procura da praia de nudismo.
Sofremos um bocado até chegar lá, pois meu carro enfrentou dificuldades patinando contra as íngremes subidas de cascalho e terra batida.
No topo do morro, avistamos a praia. Era pequena. Uns quinhentos metros de areia, talvez. Havia algumas pessoas. Pela distância, não dava para ver se estavam realmente nuas.
Minha respiração começou a ficar difícil, pois a ansiedade me apertava o peito. Sentia que estava prestes a iniciar uma aventura, mas ainda a ponto de recuar. Um momento de hesitação me deteve por alguns segundos, fazendo-me aliviar o pé do acelerador e quase parar o carro.
Márcia me lançou um olhar intrigado. Era aquariana e, como tal, menos preocupada com as conseqüências das novas experiências.
Descemos com o carro até próximo à praia. Pudemos constatar que era, realmente, uma praia de nudismo. Podíamos contar umas dez ou doze pessoas, entre homens, mulheres e crianças, todos nus.
Para não dar a impressão de sermos apenas curiosos, levei a prancha, pois havia boas ondas no mar para justificar que alguém descesse até ali com outras intenções.
Uns cem metros à esquerda, estava um homem sentado em uma cadeira e, um pouco mais adiante, um casal. Duzentos metros à direita, dois ou três casais, à sombra de alguns guarda-sóis, mais algumas crianças brincando na areia. Vestidos, na praia, somente nós dois, que estávamos há dias procurando uma praia deserta para tirar a roupa e ficar tomando sol no corpo inteiro.
Nunca havíamos tirado a roupa em público e isso fez com que demorássemos uns vinte minutos até ficarmos nus, apesar da distância a que as outras pessoas se encontravam, que mal permitia distinguir um homem de uma mulher.
Um pouco medrosos a princípio, ali ficamos um bom tempo.
A areia quente e grossa da praia, em contato com as nádegas e a região pubiana, sem qualquer tecido para separar-lhes, fazia brotar uma sensação gostosa de intimidade com o chão. A brisa que vinha do mar, carregada de maresia liberada pela rebentação das ondas, passava pelo meu corpo totalmente desprotegido, totalmente integrado com o ambiente natural à minha volta. Como a simples ausência de um pequeno pedaço de pano podia resultar em tantas e tão fortes sensações!
Essas descobertas só não eram mais profundas e intensas porque minha consciência insistia em lembrar que a qualquer momento poderiam aparecer estranhos, ou até mesmo a polícia, para reprimir tão ousada busca por liberdade corporal.
Comecei a observar um grupo que estava à direita e vi um homem com equipamento de mergulho: pés-de-pato, máscara e um pequeno saco preso à cintura por uma corda. Um homem nu, com aqueles apetrechos, parecia realmente engraçado para quem não estava acostumado a ver pessoas nuas na praia.
Ele entrava no mar, mergulhava e voltava trazendo alguma coisa dentro daquele saco amarrado à cintura. Voltava ao mar e retornava novamente. Fez isso várias vezes, até que duas moças saíram e foram até o restaurante que havia na praia, e voltaram trazendo um grande tacho de cobre.
Fizeram fogo na areia, colocaram o tacho em cima e começaram a cozinhar alguma coisa.
À distância, não podia identificar o que era, mas minha curiosidade era grande. Estivessem vestidos, eu já teria ido até lá para ver o que estavam fazendo, mas, como estávamos nus, eu não sentia coragem para tanto.
Estamos acostumados a ver cenas de nudez, sempre vinculadas a sexo, nos filmes, revistas e propagandas. Como informar ao corpo que aquela nudez feminina, caminhando livremente pela praia, não me deveria despertar excitação? Meu receio era ver as mulheres nuas e não conseguir evitar uma ereção, o que me deixaria numa situação completamente constrangedora.
Mais alguns minutos se passaram e minha curiosidade venceu o medo. Decidi levantar e ir ver o que estavam fazendo.
Fui caminhando, um tanto receoso, planejando uma rota de desvio, caso sentisse alguma manifestação física involuntária no meu corpo. Talvez, a melhor saída seria disfarçar, virar de costas, coçando a cabeça como quem lembrou de alguma coisa e correr na direção do mar. Quando cheguei perto, vi que um homem – o que estava mergulhando – veio na minha direção. Tinha estatura mediana, cabelos e barba ruivos.
- Tudo bem? Estão gostando da praia? – perguntou ele, com ar simpático.
Senti-me confortável e seguro, pela simpatia com que fui recebido.
- Tudo bem. Estou curioso para ver o que vocês estão cozinhando – respondi.
- É marisco, venha comer conosco – convidou.
Não pude recusar aquele convite e entrei no meio do grupo.
Nunca tinha visto nada igual. Pareciam índios. Estavam todos bronzeados por inteiro. Sentados à volta do fogo, pegavam mariscos do tacho e comiam.
Jamais tentara comer marisco, por achar um tanto repugnante seu aspecto, mas não pude me negar de experimentar quando uma moça morena, que estava sentada ao meu lado, me ofereceu um. Uma delícia!
Até hoje, não sei se o que me fez gostar de mariscos foi seu próprio sabor, ou se foi aquele ambiente paradisíaco no qual os experimentei pela primeira vez.
Passados mais alguns minutos, Márcia, que até então estava em nosso guarda-sol, veio juntar-se ao grupo.
Rapidamente, estávamos entrosados como se os conhecêssemos há anos. Estávamos nos deparando com uma experiência realmente incrível, como jamais imaginaríamos viver. Uma energia gostosa, confortante, parecia circular a nossa volta, como uma sensação de proteção e aconchego, como o calor e o carinho do ventre materno.
Nossa fantasia de náufragos na ilha deserta tinha se desdobrado numa experiência muito mais forte e gratificante do que poderíamos supor.
Ao final do dia, retornamos ao nosso camping, em Quatro Ilhas, já determinados a desmontar nossa barraca e acampar na Praia do Pinho. O camping estava em fase final de construção e a nossa barraca era a primeira a ser montada.
Restavam-me apenas mais três dias de férias e foi lá que os passamos, sem vestir uma peça de roupa sequer.
A partir de então, passaria a freqüentar a Praia do Pinho em todos os feriados em que para lá pudesse me deslocar, uma vez que Porto Alegre, cidade onde eu morava, situa-se a mais de quinhentos quilômetros de distância.
Naqueles últimos três dias em que ficamos na Praia do Pinho na temporada de 1985, pude viver outra experiência que me marcou.
Já mais tranqüilo, sem temer uma ereção, estava realmente bem entrosado com o grupo que já freqüentava aquele local há mais tempo.
No segundo dia em que estávamos acampados, conhecemos um casal que já praticava o Naturismo há muitos anos, e freqüentava a Praia do Pinho desde 1978. Passamos o dia inteiro conversando sobre assuntos diversos com eles, como se estivéssemos vestidos. À tardinha, porém, quando resolveram ir embora, a mulher levantou-se e vestiu a calcinha do biquíni. Não sei se foi o fato dela ter escondido o seu corpo, ou a maneira sensual de como, normalmente, as mulheres se vestem, que me fez “sentir o perigo”. Quando ela colocou a blusa, tendo ficado um seio à mostra – que ela cobriu, tranqüila e delicadamente -, não tive outra opção senão deitar-me de barriga para baixo, para “pegar o sol nas costas”.
Depois que eles foram embora, fiquei analisando minha reação: eu havia passado o dia inteiro vendo-a completamente nua, na maior naturalidade. Quando ela se vestiu, despertou minha excitação.
Foi um choque para mim. Sempre pensei que um corpo de mulher, nu, é que me excitaria, enquanto, na verdade, o que aconteceu foi o oposto.
Comecei a me dar conta de muitas coisas. Ainda que inconscientemente, sempre temos curiosidade ou excitação por conhecer o corpo das pessoas, principalmente do sexo oposto, com as quais nos relacionamos. Isso gera ansiedade e perturba a própria relação. Quando as pessoas estão completamente nuas, esta perturbação não existe e isso torna os relacionamentos muito mais tranqüilos e naturais.
Se fôssemos conceituar a palavra curiosidade, veríamos que ela significa o despertar de um desejo de conhecer, uma excitação ao conhecimento.
Muitos anos mais tarde, escrevi um artigo para um jornal que foi publicado sob o título: “Naturismo: a tendência do homem contemporâneo”, que versava sobre um tema semelhante, analisando os efeitos do tabu da nudez e discorrendo da seguinte forma:
“Muito alarde tem sido feito, pela imprensa em geral, em cima de um assunto antigo, que é novo para nós brasileiros. O Movimento Naturista Brasileiro, que vem institucionalizando, ano a ano, através da Federação Brasileira de Naturismo, mais e mais praias de nudismo pelo país, é, na verdade, muito mais abrangente do que se supõe. Apesar da sociedade brasileira, de modo generalizado, ainda demonstrar a ignorância de imaginar que o Naturismo é simplesmente o fato de ficar nu, na praia, os líderes da FBN não têm poupado esforços no sentido de divulgar e esclarecer a população quanto aos verdadeiros propósitos do Movimento Naturista Brasileiro.
Quando começamos a examinar, ponto a ponto, cada um dos posicionamentos e cada uma das propostas desse movimento filosófico-ideológico, percebemos o quão harmonizado está o Naturismo com o homem contemporâneo. É uma tendência geral: as pessoas estão, cada vez mais, assumindo seus diferentes gostos e preferências, sem se importar tanto com os padrões massificados de comportamento.
Até mesmo através dos cortes de cabelo e nas roupas, que sempre marcaram épocas, ficaria difícil caracterizar os anos 90 de outra forma que não fossem ‘os anos da heterogeneidade’.
Ao contrário do que alguns possam pensar, entretanto, o Naturismo não é uma espécie a mais, dentre tantas que se afirmam nesta década, e, sim, o gênero, pois o que esse Movimento busca, em última análise, é a aceitação e a valorização das desigualdades humanas. Na natureza, não existem duas árvores iguais, nem duas pedras iguais. As pessoas são, na realidade, todas diferentes umas das outras. Seus disfarces, às vezes, é que parecem iguais. Estamos, portanto, entrando numa nova Era, que principia nesta década, que será marcada pela queda dos disfarces.
Com a queda das roupas – o disfarce mais arraigado na cultura do homem – caem, como um castelo de cartas, os demais disfarces invisíveis que a pessoa carrega consigo. É claro que, pelo próprio princípio da desigualdade, não vamos supor que toda pessoa que se despe em uma área naturista livra-se, automaticamente, de todos os seus componentes de hipocrisia e mentira, dos quais se utiliza normalmente. Vai depender do grau de consciência do iniciante, a eficácia dessa terapia de choque através da verdade.
Em geral, a ‘terapia naturista’ funciona, pois é uma recíproca verdadeira de uma história que começou na nossa infância, quando nossos pais, cobrindo insistentemente nosso pequeno corpo nu, ensinaram-nos que devíamos sentir vergonha de nós mesmos. Uma vergonha perpétua pelo nosso corpo, que foi por eles próprios concebido. Induziram-nos à mentira e à falsidade quando, por esconderem seus corpos, atiçaram nossa curiosidade a ponto de termos de tramar qualquer artimanha ou, simplesmente, olharmos pelo buraco da fechadura para vê-los nus. Retardaram e comprometeram a nossa compreensão de masculino e feminino, homem e mulher, macho e fêmea, vinculando estes conceitos a saias e calças compridas. Conduziram-nos a vincular o prazer com proibido, determinando, assim, nossas taras e obsessões sexuais, desviando-nos do caminho do relacionamento sadio, inocente e natural com o sexo oposto. Ensinaram-nos, desde cedo, a sermos inseguros e dinamitaram nossa autoconfiança, obrigando-nos a ter, sempre, alguma coisa a esconder, nem que fossem apenas nossos órgãos genitais. Será que eles amavam mesmo o nosso corpinho ou, quem sabe, teriam preferido que tivéssemos nascido sem aquelas partes tão vergonhosas e futuras geradoras de prazer proibido?
É possível, sim. É possível que o Naturismo, sendo a recíproca dessa história que todos vivemos, possa resgatar um pouco da confiança na pureza das nossas almas e dos nossos corpos.
É possível que o Naturismo possa nos devolver a condição de sermos ’sem vergonha’, por não termos nada mais do que nos envergonhar.
É possível tirar as roupas e, com elas, todo o peso de consciência que carregamos por todos esses anos e, então, sentirmo-nos leves, puros e, quem sabe, até felizes para recomeçarmos a viver. ”
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