O mato que o Patrãozinho, como era mais conhecido o Comendador, estava me oferecendo representava a possibilidade de termos o nosso “quartel general”, indispensável para o nosso desenvolvimento futuro. Aquele mato fechado, onde nem um cachorro teria condições de entrar, tal a quantidade de cipós e espinhos que se entrelaçavam entre as árvores, representava a possibilidade de termos um lar.
Logo que apareceu, vindo do lado do Balneário Camboriú, veio num vôo rasante, muito baixo, sobre a areia. Aquilo logo chamou a atenção, mas pensei que ele iria embora, o que não ocorreu. Deu meia volta sobre o morro e desceu em mais um vôo rasante, a uns dez metros de altura, sobre a areia e, conseqüentemente, sobre as pessoas que ali estavam.
Quando estava a uns oitocentos metros da praia, vi que vinham chegando algumas pessoas nadando, trazendo uma bóia. Eram três. “Finalmente – pensei – alguém acreditou que é possível rebocar uma baleia a nado. Quando se tem fé naquilo que se quer atingir, tudo é possível”.
(Extraído do livro “Naturismo: A Redescoberta do Homem” – Capítulo X)
- Nós não proibimos ninguém de entrar na praia. Assim como, ontem, eu não fui proibido de entrar aqui, por não estar trajando calças compridas. Nós apenas, como vocês, aqui neste local público, fixamos o traje para ingresso na praia. O traje, lá, é nu – defendi. Sem ter como rebater ao meu argumento, ele se prontificou a nos ajudar.
Entrei no meio do grupo, notei que um deles era uma espécie de líder e o convidei para conversarmos fora do burburinho. Com ele, teci todas as argumentações possíveis no sentido de que eles deviam nos entregar o filme, mas não tive sucesso. Ele voltou a se reunir ao grupo e disse:
- Não vão levar! E se é para brigar, a gente briga. Nós somos do Mato Grosso e estamos acostumados a isso.
O mais difícil, em toda aquela situação desagradável, que eu queria solucionar da forma mais discreta possível, para não transmitir aos turistas que lá estavam uma má imagem da nossa praia, era conter o nosso pessoal. Nossa turma estava louca para dar uns tapas naqueles caras, que nos haviam ofendido e, mesmo assim, tinham sido tão bem tratados por mim.
Retornando, mais uma vez, a Porto Alegre, onde trabalhava, senti que deveria continuar “agitando” o Naturismo. Até porque já estava comprometido publicamente com a causa. Se deixasse morrer o assunto, na minha cidade restaria aquela imagem do “cara que revelou ao jornal de maior tiragem do seu estado que vai pelado à praia”.
Celso Rossi, um gaúcho que organizou a associação, disse, esta semana, que se dispõe a dar o mesmo auxílio ao Prefeito de Capão da Canoa. ‘Ele tem o nosso apoio e seguramente seu projeto vai dar certo’. Celso não está interessado em atrair mais sócios ou freqüentadores para a pequena Praia do Pinho, que tem 450 metros. O que ele e os outros freqüentadores desejam é que novos núcleos de naturistas se organizem no País, evitando que as pessoas precisem se deslocar de longe para uma praia onde estejam livres de curiosos.
A ata da Assembléia de Fundação fazia referência a um “regulamento ou código de ética”. Era o que estava faltando para deixar nossa organização ainda um pouco mais “quente”. Aproveitando algumas sugestões de pessoas que estavam por perto e a experiência que tinha, fruto dos problemas que já havíamos enfrentado nos últimos anos, tratei de redigir logo um código de ética.
Vi um cartaz de propaganda de cerveja afixado em uma coluna de madeira. Levantei e fui até o balcão do restaurante, onde peguei uma caneta. Quando, ao voltar para minha mesa, passei pela tal coluna, descolei o cartaz e levei-o comigo. No verso dele, comecei a escrever: “Assembléia de Fundação da Associação dos Naturistas da Praia do Pinho”.