“Desfrutando com todo o meu eu do concerto harmônico do mundo, ia ontem desnuda pelo campo com meus companheiros de clube e, com uma leveza imensa de viver, disse:
– Se vissem como estou impregnada de doçura!…
Essa é a sensação predominante que me produz o nudismo: uma doçura tolerante e compreensiva para interpretar e desculpar todas as debilidades humanas, por ter a tranqüilidade absoluta de sentir-me desculpada definitivamente.
Todas nossas faltas provêm disso que se usa chamar tentações.
Todas nossas tentações derivam do encanto intenso que produz a emoção do perigoso, do oculto, do proibido.
Quando o perigoso, o oculto, o proibido se convertem em proteção, em realidade, em naturalidade, como por arte de mágica desaparece a tentação.
Toda a superstição do pecado, com que nos tem sido vestida a alma, desde tempo imemorial, desaparece quando os seres se olham como tais, e não como mundos revestidos de diferentes aparências.
O carnaval da vida nos tem imposto um disfarce: a roupa. Despojando-nos dela, perdemos todos os atributos fictícios que o disfarce nos impusera.
E daí, dessa liberação espiritual, é de onde provém minha doçura, minha deliciosa e comovedora doçura, quando atravesso o campo comigo e nada mais, somente eu, debaixo de mim mesma, serena e consciente, para palpitar como um pequeno coração, dentro desse grande organismo maravilhosamente harmônico que se chama vida.
Que conquista sentir que soa a oco a palavra vergonha!… Que delícia ver que seu significado se dilui em possibilidades remotas de ações vis que parecem de outro mundo… de alguma história de pesadelo angustiosamente vivida alguma vez!…
Que assombro abrir os olhos do espírito ao não escutar o eco habitual dentro de mim, pronunciando a palavra pudor!
Que admiração ao comprovar que bastou com que todos nos despojássemos das roupas, para que essa carga que nos mostrava, ao que parece sem vacilações, o bom e o mau, no permitido e no inconveniente, tenha-se evaporado no ar luminoso da manhã, sem deixar traços de sua presença!
Que alegria intensa, refrescante, adulta, de sentir-se em si mesma e sacudir este jugo tácito do que nos foi legado, imposto, e que nos mantinha como frascos de essência, fechados, herméticos, egoístas, sem perfumar os dias!
Que segurança enorme de ter a verdade, de ver a verdade, de não lhe ter medo e comprovar que ela é nossa amiga, não nossa carga… Que a má, a enganosa, a provedora de pesares e desenganos, era a ilusão… A que excitava o instinto com imaginações truculentas, que agora estão trocadas pelo encanto de uma plenitude rara, transportadora, auxiliar nossa, que nos leva amigavelmente pela mão, sem rosto austero nem dedo erguido de mestre intransigente.
Todas estas impressões da minha primeira visita ao clube se intensificaram na segunda.
Eu sei que elas iniciam uma nova era em minha vida.
Assim pensei quando me convidaram.
Temia um pouco ir.
Eu sabia perfeitamente que mudança enorme produziria em mim. Sabia com exatidão as possibilidades que se fechavam com isso, mas ignorava em absoluto quais se abririam ante mim. Por isso, como em frente a qualquer mudança, temia. Por pior que seja uma posição ante a vida, temos por ela um extraordinário apego, por cômoda que é nos hábitos que nos impusera. Novas sensações, e de índole tão decisiva, implicavam, é claro, novíssimas reações: daí meu temor…
Mas dei o salto.
Tão preparada estava para ele que, diretamente saí do vestiário sem roupas e entrei em minha nova vida, com tal naturalidade que muitos duvidaram que fosse a primeira vez que praticava o nudismo.
Claro está que cada indivíduo é diferente e, portanto, meu exemplo, como o de cada um, não deixa de ser um caso isolado. Digo isto para que não me taxem, após lê-lo, de exagerada.
Eu sinto isto. O resto são pequenos ângulos que se abrem cada um até um diferente horizonte e cada qual terá sua palavra, sua expressão, seu aspecto diferente.
É por isso que me parece inútil convencer.
É por isso que somente parece eficaz convidar.
Aquele que, como meus companheiros de clube e eu, anseia o salto, o dará sozinho, pois quando a verdade está construída dentro, ela, por si mesma, é o bastante forte para se abrir passo.”